Terça-feira, 14 de Julho de 2009

S/A

Durante o extenso período que durou a fase pesada de seu vício, alimentou-se exclusivamente de internéctar, sempre jurando poder sentir a virtual desintegração de suas células cerebrais.

A rápida recuperação que seguiu-se à sua brutal desconexão deu-se em função de variada gama de cultura tradicional. Era preciso afogar-se em velhas paixões para desintoxicar-se das novas dependências.

Teve então seus dias de ronin, o xadrez ameaçador pesando sempre às costas, lembrança de que as conseqüências da busca desesperada pela aprimoramento da técnica nunca se resumiam a um simples “morrer tenteando”.

Já há muito que todos seus dias são dias de Ivan Denissovitch, o couro endurecendo a cal, cimento e cabo de enxada, na vã tentativa de minorar seus débitos para com a sociedade.

Ponta-Grossense Distribuidora de Bebidas S/A.


Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Poema em verso frouxo

Dos trôços empedrados que deixaste
solitos, por detrás dessas macegas,
receio que sequer te apercebeste
o tanto que rasgaram-te as pregas.

Jurando-te total fidelidade
logo ao descabaçar-te em tenra infância
jurei afiançar-te só verdade
a despeito de qual a circunstância.

Portanto ante o amor que me domina
não há como negar que ora sinto
mais largas que as paredes da vagina
frouxas pregas, a envolver-me o pinto.



Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves


Esse é um texto antigo, porra! E essa frase é uma merda dum link pra postagem original, caralho!

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

Convidado: Marquinho Hip-Hop

Meu amigo Marquinho normalmente escreve textos altamente reflexivos aos quais eu sempre parmito: "Põe um cabrito estripado, ou um monstro de dois cu aí pra dar emoção!" e ele sempre ignora. O desse post foi uma exceção, da qual tomei conhecimento no boteco e não tive o que replicar, apenas pedi permissão pra colocar no blog. Assim sendo, vai aí a treta, que nem título tem.


Costumava acreditar em anjos; mas eles o convenceram da própria inexistência.

Terça-feira, 21 de Abril de 2009

Demonólogo totalitarizante

Era com o matraquear agourento das curucacas que despertava a cada manhã, imediatamente consciente da própria maldade e do poder de sua magia. Um mal necessário, a única força capaz de conceder-lhe a tão almejada imortalidade.

Corpo seco nutrido pelo ódio e conservado em desespero qual espécime preservado em formol, há muito que se distanciara da lógica ou pulsões humanas, sendo portanto mais uma intuição do que uma dedução o que lhe fez ver que algo ia mal, que o desgaste da conservação da própria existência superava já a longevidade gerada pelos sacrifícios e rituais, afetando a memória que habitava a carcaça imperecível.

Ciente da concordância de toda a infinita malha que compunha seu “self”, acusou seu aceite à negociação há tanto protelada, atravessando logo em seguida os portões do inferno. Resquícios da agonia decorrente do pequeno acerto de contas que aí então teve lugar podem ainda ser percebidos, quase como hoje se percebem as convulsões e estertores do nascimento ou morte de massas estelares incomensuravelmente distantes.

Assim foi que, em nome da consciência plena que caracteriza as formas superiores de vida, entregou-se uma vez mais à única força existente capaz de preservá-la na integralidade exigida pela multiplicidade de suas formas, purgando através da dor tudo que pudesse constituir-se em empecilho à continuidade de seu existir.

Ao final do processo, infinitas partículas de si nadaram seu nado sincronizado em estreitos fachos de luz que irromperam através de todas as eras, épocas, espaços, tempos, planos, dimensões e universos, felizes por sequer saberem que nunca mais se reconheceriam ou poderiam reconhecer, como, aliás, ainda não se reconhecem...

Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

Domingo, 12 de Abril de 2009

Meias, verdades

Uma das grandes verdades do universo como o conhecemos é que o tempo passa. Outra, é que o mundo gira. Física ou literariamente falando, as implicações e conseqüências de cada um desses conceitos, isoladamente, já são suficientes para sustentar uma infinidade de teses e concepções sobre a realidade.
Quando unidos então, quem pode sequer imaginar quais, dentre as infinitas variáveis daí surgidas, será aquela que efetivamente ditará o destino de um ser humano? Em um dado momento, lá estava eu, uns nove ou dez anos de idade, deitando ao solo num acesso de fúria o colega de classe atrevido que me impedia com suas micagens a visão dos “problemas” de matemática deixados no quadro pela professora que momentaneamente se ausentara.
Mas eis que o tempo passa e, numa girada de mundo, o mesmo menino que outrora lançara mão da violência para resolver seus “problemas”, torna-se um adolescente pacífico, quase búdico em sua firme resolução de evitar conflitos físicos. Mesmo que toda a matemática do mundo se exploda. Alguma moral cristã negligentemente inculcada em um jovem e indefeso subconsciente durante as aulas de catequese nas masmorras da paróquia local; além de posteriores entreveros a imprimir diversas solas de Nikes e Adidas tanto em minha blusa, quanto em minha alma; encarregaram-se de operar tão drástica transformação de caráter.
Outros efeitos são mais prosaicos, caso se admitam variações quanto ao grau de importância das coisas em um mundo onde tudo é carbono e vácuo. Àquele que ontem era ridicularizado por comer em dois pratos – a carne separada dos demais alimentos – bastou um deslocamento de alguns quilômetros para o norte para encontrar-se em uma localidade onde o cúmulo da chiqueza reside neste singelo comportamento há tanto tempo cultivado.
Mas como seria impossível sentir as alterações sem a existência das permanências, alguns olhares de reprovação certamente poderão ser percebidos quando de sua ida até a mesa vizinha em busca das batatas fritas remanescentes da refeição de um outro cliente.
Nada que algumas notas de dinheiro legítimo, um certificado de boa índole reconhecido pelo MEC e/ou uma carteirinha de perturbado com as mensalidades em dia não possam resolver satisfatoriamente.
Distrações, enquanto não nos damos conta de que o que o futuro nos reserva é nosso próprio passado.
Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

O inferno é a estupidez

Então era assim: andava por ruas secundárias de bairros de baixo padrão para evitar sentir os olhares de tantos juízes às suas costas.
Essa gente gorda que tem por costume comprar uma nova caminhonete para combinar com cada ida ao campo não era problema. A cidade é como essas piranhas pervertidas que tanto mais se entregam quanto mais se lhe metem os pés, e, nesse sentido, tinha gastado as solas em lugares simplesmente inacessíveis a seus consolos de borracha.

Chato mesmo eram os ex-conhecidos, que perguntavam “e aí?” como quem diz “quando vai ser?”. Por um motivo ou outro, embora ainda não conseguissem interpretar sequer o que ia pelas linhas, pareciam acreditar haverem-se tornado algo de melhor ou mais importante por terem encontrado novos mestres para quem tocar o realejo a troco de dinheiro para comprar contas à prestação.

Mas... Se ainda estavam vivas na memória suas expressões de perplexa incredulidade ante esquimós, tomates enquanto frutas, cerâmica para motores, heterogeneidade do passado, deus como tríade e toda uma miríade de conceitos tão estupidamente simples a ponto de serem encontrados em qualquer livro santo ou gibi, não seria fato que qualquer conquista de sua parte poderia ser encarada como amplamente suspeita?

Na verdade, ele sabia. Bastava uma olhada por detrás dos edifícios, onde vastas extensões de mato se desdobravam por entre as zonas residenciais para convencer-se da inutilidade de delongar-se em explicações sobre o porquê de mais valer um clichê de Schiller na mente do que dois de Sartre na mídia...
Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

Parábola de sol e trevas

Já há algum tempo que eu não saía pela manhã, ou sequer acordava antes do meio dia. Pelo menos não com essa freqüência. Mas o ritmo e as imposições sociais modernas são abominações tais, que por vezes renunciamos a nossos princípios e ao que nos é natural, em nome de posições que nos possam garantir sobrevivência e conseqüente esperança de perpetuação da espécie.

O que estou querendo dizer é que arranjei um emprego, e que a sensação de acordar cedo e enxergar o sol fustigante e opressor lá em cima é deveras estranha, seja pela falta de hábito e pelo ambiente desconhecido em que me encontro, seja por minha reconhecida animosidade quanto a astros, reis e congêneres.
E embora a culpa não seja da estrela, e sim da humanidade que por milênios carregou de simbolismo estúpido a sua figura, em geral deixo que sobre aquela recaiam meus impropérios, uma vez que tanto faz dirigir-se a um ou outro objeto inanimado.
Afinal de contas, há figura mais arrogante e presunçosa que a do sol, sentado nos cimos do trono celeste com sua bunda dourada, fustigando nossos lombos dia após dia com seus raios, os quais têm a indubitável função de nos relembrar constantemente que é a sua divina dádiva que nos permite existir enquanto seres vivos produtores de merda e mijo?
E antes que me acusem de suposta heresia, tentando esfregar em minha cara uma moralidade que nada me significa e a qual abandonei há muito, relembro a eventuais detratores que não sou eu quem se utiliza da superposição de meu ego sobre a natureza para justificar uma situação de confortável injustiça largamente reconhecida e convenientemente sustentada através de mitos e representações hipócritas e tendenciosos. Ao menos não em larga escala...
Chegará o tempo em que conjunções propícias permitirão que das mais abissais profundezas dos recônditos onde reina o fogo preto, surja a botina que bicudeará a simbólica bunda do simbólico trono, bicudeando por extensão as bundas de todos os seus seguidores. E minha será a botina, e minhas serão honra e glória.
E atravessaremos a noite eterna em diversões frias porém não frívolas, sem nos preocuparmos em dormir ou acordar.
Posto que sou um cristão e como tal me comunico por parábolas.
Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves