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quarta-feira, 29 de maio de 2013

A suavidade do peso

O vento é suave
e a água é pesada.

Subprodutos múltiplos
da decomposição de núcleos
de ação familiar.

Suave é água
e pesado é o vento
sujeitos complementares

de inação ao mesmo tempo.

Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

sábado, 16 de março de 2013

Solvente universal

Daqui
o que sei 
que precisarei

são minhas aulas de vôo
a verdade
travestida em sonho

e a fria escuridão da madrugada
que à luz de qualquer fogo
transforma-se em nada.


Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

domingo, 23 de dezembro de 2012

Os arquivos Rasputin: Um negócio dos infernos


Chipo Schneider teve um sonho com fogo e mulheres afogadas. Então saiu pelo castelo a descobrir câmaras secretas e uma história que abalaria a região: o grande incêndio que se abatera sobre a vila em fins do séc. XIX fora na verdade obra de Suzy Psicopatinha, que achou um jeito de unir num mesmo evento seu amor pela fotografia e seu ódio pelos habitantes do vilarejo.

As fotografias macabras e todas as provas do crime encontravam-se em uma cripta hermética, guardadas por uma sociedade secreta dedicada a provar a inexistência de bobagens parapsicológicas através da falsificação e reprodução de crimes sobrenaturais.

Só então, observando os detalhes da decoração e as próprias mãos, foi que Schneider entendeu: estava nos anos 50, em plena viagem astral, revivendo os últimos momentos de Lily Rosembaum, sensitiva assassinada pela seita para não revelar suas descobertas, dada como morta em um conflito paranormal. Isso explicava os sonhos com água. Não eram parte da trama do castelo, mas sim um pedido de socorro por parte dos espíritos dos marinheiros de um galeão espanhol amaldiçoado por uma bruxaria encontrada nos destroços de um velho navio viking saqueado há séculos, a qual era parte do destino de Lily desvendar.

Com seu assassinato, as energias residuais de seu espírito atormentado procuraram por décadas alguém de capacidade equivalente para resolver sua situação, e era a premência desta agonia que se manifestava através dos sonhos com água.

Ao acordar à escrivaninha do escritório, Scheneider tomou o telefone e disse à secretária que comunicasse ao sobrenatural que estava assoberbado e recusando casos intrincados como o que lhe fora exposto esta tarde, mas que lhes recomendasse o nome de Jack Palanhengo, médium competente e módico nos preços.

“Prevejo que esse caso ainda vai acabar levando Jack pro inferno” – pensou sorridente, sem atentar para a visagem que lhe implantava escutas em pleno cérebro…

Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

sábado, 15 de agosto de 2009

Como diz-se

Ao contrário de tantos outros, estava feliz tanto em sua condição de tijolo quanto em sua posição junto à base da grande pilha desordenada que era o único mundo que já conhecera.



Não aspirava um dia tornar-se muro ou edifício, nem nada que implicasse em abandonar sua tão prezada individualidade, de modo que não perdia seu tempo em idílios ou planos sobre como galgar ao topo, de onde se afirmava ser mais fácil a transcendência.



Quando sopraram os ventos da revolução, virando do avesso as certezas e trocando tudo de lugar; enquanto alguns dedicaram-se a exaltar a glória das argamassas e outros procuravam explicações sócio-físio-científicas condizentes com os próprios conceitos; enquanto a grande maioria aproveitava para demonstrar a força de sua fé no Homem, o ser todo poderoso que criara o universo a partir do barro e do fogo – rogando-lhe das formas mais ardorosas que protegesse a si e aos seus; foi que desapareceu.



Em meio a tamanho caos, ninguém reparou no destino de tão insignificante figura. Diz-se que partiu-se todo em nome do fim que lhe foi reservado, remoendo-se de tal forma, que cada um de seus grãos, de tão refinados, hoje pulsa em diferentes pontos do centro da essência de tudo que existe.



Diz-se que virou ponte, e que de suas lágrimas é que surgiu o rio por sobre o qual eternamente chora, sozinho, no mesmo lugar.




Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

domingo, 5 de outubro de 2008

Shibumi


E serei

como a sombra que assombra,

como anta que espanta,

como a água que espalha.


Lamentando intensamente

a eterna dor de desviver.


Vasilho.

Vasilho da Gama,

Vasilho dos Dias,

Vasilho da Luz.


Vasilho.

Sobrenome, trocadilho;

rima na escuridão.


Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves