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sábado, 17 de abril de 2010

Fábula da mágica mentira

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A energia que possibilitou a realização do ritual, retirou-a de uma dessas convulsões sociais que de tempos em tempos convergem em todos os planos, quando através do previsto pela configuração astral do Cometa Meteoro com as Linhas Abissais Anômalas, apresentou-se em local e momento corretos para absorvê-la de uma das maiores já vistas, que ceifou incontáveis vidas de toda e qualquer espécie jamais existente.
Nos parapeitos e sacadas das beiradas dos cantões de todos os universos, sacerdotes e altos-dignatários de variadas designações esotéricas reuniam-se com grupos seletos de pupilos, herdeiros e familiares exigindo atenta observação. Tantos e tão diferentes mestres; uma única recomendação: - Alá a merda que rola quando profanos se metem a desencadear eventos!
Juniki, o mais novo e promissor dos filhos de Bierklaus, Sumo-Sacerdote e líder supremo dos místicos do Horto Negro, torceu nervosamente a barra de sua toga cerimonial e encolheu-se quase imperceptivelmente ante a magnitude e o espectro das forças desencadeadas. Seu experiente e poderoso pai, tratou porém de tranqüiliza-lo: - Susse fry, a possibilidade de manipulação de tais energias é proporcional ao caráter lobisómico daquele que as invocar. Um afetado a vampírico com intenções claramente calculistas como este jamais teria a força de vontade necessária para dominar tamanha fúria. Ele será consumido pela própria ambição.
Mas ao invés de implodir e consumir o profano em seu centro, a enorme massa de radiação incandescente, como que impelida por sua vontade, expandiu-se em espirais sucessivas até assumir a forma daquilo que parecia em seu exterior uma estrela de sete pontas com os vértices perfeitamente alinhados com cada um dos portais de observação, levando em múltiplas realidades o astrônomo amador Ricky Padeiro a exclamar simultâneamente: - Um flambant!
Do interior porém, a situação era inversa. Os vértices é que formavam pontes invisíveis ligando a estrela e os portais, através dos quais irrompiam instantaneamente alcatéias desordenadas de incontroláveis chamas lobisomórficas, torrando os observadores nas sacadas e parapeitos dos confins dos cantões dos universos, os fracos na mesma hora, os fortes um segundo depois.
Descendo da cabine da estrela - que agora permaneceria ligada por pelo menos cinco eternidades, impedindo definitivamente através de exaustão por consumo qualquer tentativa de reexistência por parte dos habitantes dos portais - o profano foi recebido por uma multidão de aturdidos acólitos, que pela primeira vez testemunhavam uma bem sucedida prática de resistência ao tão afamado ritual de suicídio.
Através dos éons o inusitado de um tal feito geraria especulações sobre como um ser de características eminentemente vampíricas domara o cão, sendo que de cada vez que alguma lhe chegava ao conhecimento, o profano gorgolejava rios de cachoeiras; tanto celebrando a feliz coincidência triste que o despossuíra frente ao mundo a caminhar em quatro patas, quanto desdenhando da burrice analítica de seus estudiosos, que por medo ou preconceito, sempre se furtavam à aproximação que permitiria um entendimento detalhado sobre a natureza da besta, cuja insuspeitada consciência não necessitava para orientá-la em direção ao caminho desejado mais do que a força de vontade necessária para convencê-la da honestidade de seus propósitos. Ainda que mentirosos...

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E de cada vez que isso acontecia, a multidão de acólitos que sempre o cercava qual moscas rolando bosta, por sua vez limitava-se a exclamar entre sussuros: - Esse profano é doidão!


Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

domingo, 5 de outubro de 2008

Profecias sobre o passado



As pessoas vivem cercadas de belos dejetos. Elas se amam e amam umas as outras, mas como manda a moral e os bons costumes, uma de cada vez.

Olhos nos olhos, nenhuma palavra. Me envolva menina, que eu deixo. Enquanto isso, no açougue, a fila anda. Escreveu, não leu, o sabonete caiu, o pau comeu.

Não se pode confiar em mais ninguém nessa vida, chuchu, e é por isso que eu tenho um pé atrás. E outro na frente. Sempre.

Confie ne mim baby, eu vou fazer funcionar. Mecânica é a conversa do mecânico. As vezes tenho vergonha de ser bobão assim, mas dizem que isso é coisa que só acontece com quem tem sentimentos.
Eu me deito, e recordando da época em que nunca errava, me pergunto quando e porque os adquiri.

Conforme o tempo passou, e os vícios ganharam terreno, e os corpos se amontoaram a seus pés, nosso herói solar de número três balançou a mão com um muxoxo. Tudo que era capaz em termos de remorso. A seguir, olhos relampeando como no gibi, seus músculos retesados moeram a próxima vítima. De nada, tudo de novo.

É desse jeito, vocês gostam assim, uhum? Pois é, eu gosto do outro, e quem quiser mais desse, vai ter que agüentar três por um. Que tal que eu fosse ruim, e competisse de verdade só pra ver os números se multiplicarem, já imaginou?

Quando a gravidade se unir ao eletromagnetismo, e o maior for igual ao menor, os mundos se partirão em estilhaços, e em cada um deles, lá estarei eu, código genético do universo. Observar-me-ei em microscópios, e só enxergarei minha nuca. E mexerei minha mão esquerda, e em cada milhão de bilhão de trilhão de estilhaço, mexerei minha mão esquerda.

Nem eu não tenho honra, nem não tenho moral. Minh'arma não é minh'alma, e sim um pedaço de pau.

Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves


domingo, 13 de julho de 2008

Aulas de oficinas

- Depois que descobri que o movimento surrealista foi o mais retumbante fracasso em termos de literatura, minha vida não foi mais a mesma.
- Sério? Por quê?
- Porque eles ambicionaram demais e conseguiram de menos, ou seja, imaginaram que a escrita automática revelaria o lado mais puro da escritologia, mas desconhecendo que a linguagem literária obrigatoriamente segue uma estrutura linear e diversa da estrutura da consciência, estavam fadados ao fracasso.
- Bah! Mas isso eu sei! Quero saber por que sua vida nunca mais foi a mesma depois dessa merda.
- Passei a escrever tipo assim:
Prólogo:
- Esse?
- Não.
Cânones regras e dogmas
- Esse aqui, com uma mochila dentro.
E uma pedrada, uma roubada, uma corrida.
Epílogo:
- Que que tem dentro?
- Livro... Caderno... Mulher pelada!
- Fan-zin-ne? Per-ver-sor?
- Chama Jesus de filho da puta!
- E daí?
- Sou religioso, respeito Jesus.
- Meu! Jesus diz pra não roubar!
- Só se for dos ricos pra dar pros pobres.
Fim
- Ihhhhhh! Gostei não...

Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves



domingo, 3 de fevereiro de 2008

Coisa feia

- Sua comida é feia.


Absorto em meus pensamentos entre uma bocada e outra, não entendi ou sequer prestei-lhe atenção, resmungando um “Hum?” a título de resposta.


- Sua comida. É feia.


Principiando a dar-lhe ouvidos, imaginei que referia-se a meu jeito estabanado de utilizar os talheres, derrubando alimento pela mesa, peito, colo e chão; ou ainda à minha inata habilidade em lambuzar de molho da orelha à nuca ao comer cachorro quente.


- Ah! Isso também!


Também? Acaso havia mais? Estava já desconfiado de a fêmea estar-se utilizando de artifícios semântico-eufemístico-conotativos para fazer saber alguma insatisfação mais pessoal, passional, íntima... Comunicados raciocínio e dúvida:


- Hahahaha! Não bestão! Olhe para o seu prato e olhe para o meu.


Obedeci, seguindo estritamente a ordem proposta. No primeiro, a couve; o alface; o tomate; a rúcula e o agrião, devidamente picados, disputavam a tapas espaço com o arroz e o feijão, todos concomitantemente engalfinhando-se com a farofa de repolho. E tudo elegantemente encimado por uma dourada bisteca, como se um quadro de Pollock usasse chapéu.


No outro, pequenas porções das mesmas coisas estavam dispostas como num arranjo ornamental, de acordo com alguns preceitos das cozinhas oriental ou francesa. Havia mesmo linhas geometricamente traçadas, separando o vermelho, o verde, o branco, o preto e o amarelo.


- Vê?


E eu via. Via que, realmente acreditando que o café deve ser tomado quente e a cerveja gelada, ela nunca entenderia que não é o estômago ou a língua que reclama quando esta ordem se inverte, e sim o cérebro. E me achei forte e superior, por poder jogar para dentro todo tipo de porcaria de uma vez só, sem antes precisar catalogar e avisar ao organismo quantas gramas de quê estavam chegando. Minhas células eram suficientemente espertas para realizar a triagem por si mesmas.


A conclusão óbvia é que o primeiro prato, por refletir a anarquia, o meu próprio paladar, e a pujança e inteligência daqueles que podem comer o que bem entenderem, é superior. Enquanto que o outro, da ordem e conseqüentemente do progresso, por assemelhar-se ao imobilismo das fórmulas restritivas que tem por função amoldar corpos e mentes em um único padrão social, não passava de um engodo insosso.


Tentei participar-lhe minha genial conclusão, mas era tarde. Ela já se havia levantado, e elegantemente encaminhava-se ao banheiro onde, pontualmente ao meio dia e trinta e cinco, largava o seu barro diário.




Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves






Texto originalmente postado em: http://nossogarfodecadadia.blogspot.com/2007/01/coisa-feia.html