domingo, 3 de fevereiro de 2008

Coisa feia

- Sua comida é feia.


Absorto em meus pensamentos entre uma bocada e outra, não entendi ou sequer prestei-lhe atenção, resmungando um “Hum?” a título de resposta.


- Sua comida. É feia.


Principiando a dar-lhe ouvidos, imaginei que referia-se a meu jeito estabanado de utilizar os talheres, derrubando alimento pela mesa, peito, colo e chão; ou ainda à minha inata habilidade em lambuzar de molho da orelha à nuca ao comer cachorro quente.


- Ah! Isso também!


Também? Acaso havia mais? Estava já desconfiado de a fêmea estar-se utilizando de artifícios semântico-eufemístico-conotativos para fazer saber alguma insatisfação mais pessoal, passional, íntima... Comunicados raciocínio e dúvida:


- Hahahaha! Não bestão! Olhe para o seu prato e olhe para o meu.


Obedeci, seguindo estritamente a ordem proposta. No primeiro, a couve; o alface; o tomate; a rúcula e o agrião, devidamente picados, disputavam a tapas espaço com o arroz e o feijão, todos concomitantemente engalfinhando-se com a farofa de repolho. E tudo elegantemente encimado por uma dourada bisteca, como se um quadro de Pollock usasse chapéu.


No outro, pequenas porções das mesmas coisas estavam dispostas como num arranjo ornamental, de acordo com alguns preceitos das cozinhas oriental ou francesa. Havia mesmo linhas geometricamente traçadas, separando o vermelho, o verde, o branco, o preto e o amarelo.


- Vê?


E eu via. Via que, realmente acreditando que o café deve ser tomado quente e a cerveja gelada, ela nunca entenderia que não é o estômago ou a língua que reclama quando esta ordem se inverte, e sim o cérebro. E me achei forte e superior, por poder jogar para dentro todo tipo de porcaria de uma vez só, sem antes precisar catalogar e avisar ao organismo quantas gramas de quê estavam chegando. Minhas células eram suficientemente espertas para realizar a triagem por si mesmas.


A conclusão óbvia é que o primeiro prato, por refletir a anarquia, o meu próprio paladar, e a pujança e inteligência daqueles que podem comer o que bem entenderem, é superior. Enquanto que o outro, da ordem e conseqüentemente do progresso, por assemelhar-se ao imobilismo das fórmulas restritivas que tem por função amoldar corpos e mentes em um único padrão social, não passava de um engodo insosso.


Tentei participar-lhe minha genial conclusão, mas era tarde. Ela já se havia levantado, e elegantemente encaminhava-se ao banheiro onde, pontualmente ao meio dia e trinta e cinco, largava o seu barro diário.




Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves






Texto originalmente postado em: http://nossogarfodecadadia.blogspot.com/2007/01/coisa-feia.html


7 comentários:

luigi's disse...

e a cagada dela? é feiá?

luigi's disse...

curti seus textos,aliás já curtia desde o perversor e os suicidas também vão para o céu.
dá um olhada no meu trampo

http://supositorio.wordpress.com/

Anônimo disse...
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Paulão Fardadão Cheio de Bala disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulão Fardadão Cheio de Bala disse...

Hummm, na verdade é Só os suicidas vão para o céu tá ligado? Pq quem não se dá pelo semelhante, não segue o exemplo cristão, de se matar em nome so próximo. Mas se vc lembra disso, deve ser membro de algum círculo exclusivo de amigos de camaradas de vizinhos de chegados, explique melhor de onde conhece o tio, fazendo favor.

Letitia Morgan disse...

Cada ser tem as suas certezas muito certas, acredita ainda que as dele são melhores do que as dos outros.

Amandita disse...

Henry Miller perde. Que inveja de ti, coisa. Um dos meus favoritos teus. Abraços.