domingo, 6 de julho de 2008

O último dos dinossauros modernos

Você sabia que o velociraptor tinha penas? Ele é aquele dinossauro menor que é abocanhado por um tiranossauro na hora em que vai comer uma das criancinhas do filme O Parque dos Dinossauros. Só que lá ele aparece pelado, como um lagarto.

Um erro que foi muito comum, sendo reproduzido em revistas científicas nacionais e internacionais. Hollywood, ciência. Invenções humanas, cheias de falhas, nos fazendo imaginar errado as vezes pela vida inteira, sem sabermos ou nos incomodarmos.

Eu tenho guardado aqui em casa um fandangossauro. Achei dentro de um livro, que pelo jeito não era aberto há anos. Está em perfeito estado de conservação, nunca foi colado. Pra quem não sabe, o fandangossauro é uma espécie rara de dinossauro, um estegossauro colorido e sorridente, que tem nas costas uns fandangos gigantes no lugar das plaquetas. O conjunto todo tem um ar meio bobo, com o objetivo aparente de agradar os consumidores infantis. Faz parte de uma coleção de figurinhas lançada vários anos atrás pela Elma Chips, no tempo em que eu era criança.

Engraçado que naquela época eu nem dava bola pras figurinhas. Ia ao mercado aos sábados com meu avô, e no carro mesmo voltava comendo Cheetos com danoninho. Segundo a minha mãe, foi esse tipo de hábito alimentar pouco saudável que estragou a minha saúde, me deixando menor e mais fraco que todos os meus irmãos e primos.

A tal da figurinha me despertou um saudosismo daqueles sábados. Do barulho da Variant do vô acordando a gente bem de manhãzinha; da vó xingando pela casa, "Que pressa que tem que ir correndo tudo!"; da confusão fervilhante de pessoas e carros na frente dos Mercados Chamma, aquelas se atravessando e atrapalhando as manobras destes, que por sua vez cometiam barbeiragens tão grandes que faziam meu avô - motorista profissional por mais de trinta anos - proferir palavras de um calão realmente baixo num tom realmente alto de decibéis. De cada vez
a vó replicando: "Credo Pedro!", e fazendo o sinal da cruz.

Já faz alguns anos que a figurinha está comigo, e eu fico imaginando se o saudosismo vai aumentar com o tempo. E se eu, com menos de trinta anos sinto uma coisa dessas, imagine se nós ressuscitássemos o tal do velociraptor da Mongólia - que morreu faz uns sei lá quantos milhões de anos atrás, supostamente sob um deslizamento de areia, engalfinhado com um protoceratóps - e mostrássemos uma das figurinhas da infância dele, o saudosismo que o bicho não haveria de sentir!

Ultimamente quando passo na casa do vô e vejo as mesmas coisas, no mesmo lugar em que sempre estiveram desde que eu posso me lembrar, é inevitável que eu comece a divagar. Vai me dando uma sensação estranha, que não é ruim nem boa, que eu acho que é a sensação que se tem quando se é muito velho, e sabe que as coisas são como são, e que tudo está como está porque é bem assim mesmo que é pra ser, inclusive essa minha vontade doida de ir contra, mesmo que eu acabe soterrado sob o peso de todas as coisas contra as quais eu não tenho como lutar.

Aí eu desperto do transe, vou até o banheiro, jogo uma água no rosto e fico fazendo cara de Clint Eastwood. Nesse momento, concentrado no fundo dos olhos da minha imagem refletida, me percebo orgulhosamente como o último dos dinossauros modernos.

Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves


Postagem original

3 comentários:

Eskarola disse...

que burgue vc...danoninho com cheetos.

dinossauro...old school
potato, potato...


poxa, quase não tenho guardado nada da minha infância e nem tenho avô vivo e nem nada...me sinto desprivilegiada perto de vc, ora bolas.e pare de me deprimir!

Blue Blood disse...

uhhh... LEGAL MESMO

kkkk

parabéns pelo blog...

javAlisson disse...

esses dias mesmo eu conversei com meu irmão sobre uns brindes da elma chips, aquelas lupas e uns livretinhos com umas charadas, aquilo sim era massa... o tazo ficava no chinelo, hahaha.

Por que será o baixo número de comentários aqui, sendo que nos tópicos vizinhos tem dezenas???

Abrazzz Paulete, cara de canivete.