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domingo, 23 de novembro de 2008

O nexo dos anjos


Tudo que havia era espaço. Na mente, na "alma", nos olhos.
Estes, de tão vazios, tornaram-se opacos, chegando a existir quem simplesmente não soubesse distinguir-lhes a cor. Enquanto uns os afirmavam azuis, outros os garantiam vermelhos.
Tanta neutralidade constituía seu ser, que pouco se lhe diferenciavam os meios com os quais ganhava o pão. Artes ou assassinato, política ou prostituição. A vida é pródiga em opções quando mantém-se a mente aberta.
Certo dia, em meio à eterna disputa entre esquerda e direita que usava para impulsionar-se, magicamente dissipou-se e ascendeu aos céus.
Amantes e ex-amantes vieram a público afiançar-lhe a angelicalidade, posto nunca ter sido possível discriminar-lhe o sexo.

Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

domingo, 20 de janeiro de 2008

Cinzas

E me senti bem por ter todos os sentidos despertos e apurados, indicando que havia chegado o tempo de cuidar e não ser cuidado, como todos ao redor bem sabiam. E quedei-me ali a sentir-me bem, enquanto no vídeo passavam todas as últimas novidades dos anos sessenta.

A TV Macho decretou: cinza é a cor da moda. Para sempre, para felicidade dessa cidade de alma cinza, de cujo céu nuvens chuvosamente cinza resolvem descer quando lhes dá na cinzenta telha, tornando-se densa névoa donde surgem sem aviso idílios ou abominações, conforme a imaginação do transeunte.

É uma cidade fantasma, disseram-me seus gentis lábios de mocinha interiorana. Ó sim! Como mesmo uma recém chegada pode constatar, há penadas almas cinza a perambular dia e noite pela cidade. Essa névoa, essas nuvens, essa cor, essa sensação, não passam de uma manifestação da sua presença.

Uma música traz a lembrança do porquê da escolha em tratar apenas com entes mortos é vã. Existir é machucar. E machucar-se. As vezes, voluntariamente.



Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves



Vai o vídeo como referência: