domingo, 13 de fevereiro de 2011

Umbigolatria

Chove sobre minha cara,

posto que não sou pateta, alarmoso nem covarde

para que se me cubra a face frente a nuvens de algodão.


Chove sobre minha alma,

pois que não sou violento, grosseiro ou tampouco tolo

para desfraldar bandeiras em terrenos de imaginação.


Chove sobre Santiago.

Foda-se.



Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Panacéia II

Preso no quarto escuro, junto a uma sucessão infindável de considerações e lembranças desagradáveis.

Talvez seja apenas a noite, madura demais para desejos tão infantis. Talvez seja algo mais perigoso, e o vazio em meu interior seja um pálido reflexo do infinito vácuo exterior, uivando e gemendo sua pressa em consumir-me junto a tudo o mais.

É uma noite moderna, e há tempos o neon e o cabeamento por fibra ótica varrerram da realidade as ameaças das sombras correndo pelas paredes nuas. No entanto, a despeito do que assegurem mil diferentes religiões, ciências ou psicologias, não posso deixar de preocupar-me com aquilo que sinto.

Dor, fome, medo, fúria. Deus queira o telefone ligue o motoboy que me traga com urgência duas caixas de alívio imediato, antes que meu peito exploda e reverbere com o vento, doses do mais puro e refinado sentimento.


Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

domingo, 30 de janeiro de 2011

Panacéia

Oferece-se a cada um a medida exata daquilo que consegue apreender. Aos viciados as drogas, aos apaixonados o amor, aos sensatos os ceticismos, aos sofredores a dor.


Em duas ou três linhas, o mar de sensações no qual afogar as vilanias da existência.




Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Ciência contábil

Eu sei,

e conhecimento é poder.


Contra as tensões padronizadas

do convívio social

onde vento é só vento,

manifestação mecânica do movimento do ar,

eu sei.


Acompanhar seu ritmo

e no transe induzido da dança caótica através dos tempos,

deixar-me levar pelo espaço imutável,

que nunca é igual.


Pés firmemente plantados no ar

e a plena consciência

de que conforme a matemática

dois mais dois

são mais dois

mais dois.


Eu sei

assim como sei quem não sabe

embora não saiba ao certo

saber quem sabe também.


Talvez por isso

continue errando tanto nas contas

de mais dois

mais dois.


Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Engenho econômico

A despeito da total imobilidade que sinalizava o desespero de seu niilismo obssessivo, ninguém, por incompetência estética ou compassiva, estendeu-lhe a mão.

Talvez um tiro na boca lhes reavive a memória - arquitetou, da imensidão solitária das cinco paredes do orçanatório estatal.


Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Etnometrice

Sobre o que sem valor ou sentido
sobretudo,
alucinações.

Sobre tudo que não presta,
sobretudo o que atesta
o oco ao vazio.

Sobre embriaguez e crendices,
sobretudo os sinais nas promessas,
piscadelas com fins de etno-meteção.

Sobretudo,
sobremaneira,
método;
sobre tudo.


Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves



sábado, 14 de agosto de 2010

Auto-estima

Todo mundo tem seu modo,

todo modo tem seu mundo.


Seu lago,

seu narciso,

sua vida,

sua luz.


Que se perde num jogo de espelhos,

num segundo suicida de auto-reflexão.


Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Deus e o Diabo na terra do Tao

Enquanto o Yin

(escrevendo reto por linhas tortas)


enceta mais um lance de sua eterna batalha


contra o Yang

(escrevendo torto por linhas retas)


o poeta insiste em escrever no escuro

por pura preguiça

de ascender à luz.



Paulo Eduardo de freitas Maciel de Souza y Gonçalves

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Sonhos d'espadaria

Os sonhos são tolos
crivados de balas
abertos na faca,
contundentes e incisivos
como cacos de garrafa;
os sonhos são meus.

Os sonhos são planos
amorfos
insanos
triturados sob o peso do tempo que dispara
são pó
de pirlimpimpim.

Os sonhos são doces
com gosto de sangue
o velho
o ferido
o jovem
perdido
no olhar do predador.

O sonho é aquilo
que mantém-se vivo

no silêncio,
na friagem,
na total escuridão.


Paulo Eduardo de Freitas Maciel de souza y Gonçalves

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Bizorra

Soube que seguramente teria uma vida breve, acabada na fulgurante desgraça dalguma calamidade individual ou coletiva quando surpreendeu-se imaginando as vantagens de envelhecer.


Mais um pouco e teria filhos, gastando a alma e tornando-se visível aos olhos cobiçosos de uma miríade de egos infláveis, ao amálgama indistinto de todas as consciências tortuosas que julgavam-se abençoadas pela maldição de não morrer.


E na consideração da plausibilidade da insanidade a tanto tempo impingida foi que descobriu-se comum e medíocre, bem de acordo com a regra implícita que impõe ao loco que é loco que não o admita.


Assim, num universo de indescritível pequenez, alcançou a proeza de tornar-se no super-inseto bizorra, que lê o futuro de trás pra diante e age de cor e salteado na esperança de, através da média aritmética, manter os cantos de seu mundinho nos devidos ângulos de 90º.


Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

terça-feira, 29 de junho de 2010

Meio-termo

Compartilhava mediunicamente da opinião média do cidadão mediano: artista bom é artista morto.

Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

sábado, 26 de junho de 2010

É isso aí!

Foram meses e anos e meses e a solução não veio. No entanto todos se sentiam bem, conectados àquilo que chamavam de isto e ninguém sabia o que era.


Interpelados em qualquer situação, no entanto eram unânimes em concordar: “Isto é bom! Ah sim, isto é muito bom!”


A despeito de qualquer prova em contrário, passaram a acreditar que isto era tudo, e em breve nada mais existia.


Limitados que se encontravam a só isto, era iminente a desgraça. E ela desgraçadamente sobreveio, rasgando aos olhos de todos uma nova e incompreensível realidade: This is it!



Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Despesas

O acaso não pune a inocência de quem segue às apalpadelas pela escuridão

em busca da transmutação do abjeto em palatável

da merda em ouro

do ai em oi

do suspiro em exclamação.


Senão,

a rejeição insana à alegria estéril

seria pecado,

e a dicotomia intrínseca a toda ciência da fé

uma heresia imperdoável,

e todo trabalho de encriptografação de sentimento em poesia

um desperdício monumental.


No entanto, se assim o for,

que assim o seja,

e amém,

para todas as lágrimas despendidas em vão.


Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Análise estrutural

A diferença entre quem sempre escolheu a opção mais fácil e quase fracassou e quem sempre escolheu a opção mais difícil e quase triunfou resume-se ao "quase".


Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

domingo, 16 de maio de 2010

Fetiche

- Seu guarda, tenho cinco gramas de bosta na calcinha. Não quer se enfiar no meu cu ver se acha o resto?

Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves