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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Etnometrice

Sobre o que sem valor ou sentido
sobretudo,
alucinações.

Sobre tudo que não presta,
sobretudo o que atesta
o oco ao vazio.

Sobre embriaguez e crendices,
sobretudo os sinais nas promessas,
piscadelas com fins de etno-meteção.

Sobretudo,
sobremaneira,
método;
sobre tudo.


Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves



terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Pão e carne


Chupão na virilha é sinal de compromisso em certas culturas. Hoje sei perfeitamente, mas naquela época eu era jovem e inexperiente nesses assuntos de amor, e nem desconfiava que a mulher no chuveiro já me considerava sua propriedade.
Eu dormia inocentemente, sonhando que minha avó fritava pastéis para o almoço enquanto eu me refestelava no sofá da sala, sob o sol que entrava pela janela esquentando a minha cara. Foi duplamente estranho acordar no quartinho do hotel. Por um lado, fiquei triste ao me dar conta que não haveriam pastéis para comer, por outro, feliz em relembrar que nem só de pão o homem viverá.
É minha vez de tomar banho, e eu deixo minhas roupas sobre a cadeira. Saio do banheiro buscar xampu, bem a tempo de ver a doidona trancar a porta e sair vazada com toda a sua bagagem. Mais as minhas roupas. Minha inexperiência não se estende a outras áreas, tais como arrombamentos, e em pouco tempo eu estou pelado no corredor, procurando por algum funcionário ou hóspede que me descole um xampu.
O cara da portaria me arranjou uma calça, um par de chinelos e uma camiseta velha, curta demais para mim. O quarto está pago até a uma hora da tarde de amanhã, e eu resolvo passar a noite e esperar pelo café grátis a que os hóspedes têm direito todas as manhãs.
Lá pelas sete da noite, ouço um barulho na porta quando a guria está voltando, vermelha e ofegante com o esforço de carregar sozinha toda a bagagem.
- Onde você foi?

- Comprar passagens de volta.

- E pra que levar minha roupa?

- Sou ciumenta. Vai que você foge?

- E pra que levar suas malas?

- Sou desconfiada. Vai que você me rouba?

- Tudo bem, você está certa. O negócio é esperar até amanhã, e tchau.

- Não. Você vai comigo. E mostra que tem duas passagens para sua terra.
Ciumenta, desconfiada, impulsiva e possessiva. Fico pensando num jeito de dopar essa guria e levar embora todos os seus pertences. E roupas. Mas talvez, se ela estiver disposta a me sustentar, seja uma boa idéia perder uns dois ou doze anos ao lado dessa magrona.
Mas isso eu decido só amanhã, depois do pão com mortadela.

Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

sábado, 23 de agosto de 2008

Boy



Você é boy,

porque tem pinto,

eu ouvi,

piu de pinto.


Punk que é punk dá o cu,

porque é viado,

meninas são viado.



Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves



domingo, 3 de fevereiro de 2008

Coisa feia

- Sua comida é feia.


Absorto em meus pensamentos entre uma bocada e outra, não entendi ou sequer prestei-lhe atenção, resmungando um “Hum?” a título de resposta.


- Sua comida. É feia.


Principiando a dar-lhe ouvidos, imaginei que referia-se a meu jeito estabanado de utilizar os talheres, derrubando alimento pela mesa, peito, colo e chão; ou ainda à minha inata habilidade em lambuzar de molho da orelha à nuca ao comer cachorro quente.


- Ah! Isso também!


Também? Acaso havia mais? Estava já desconfiado de a fêmea estar-se utilizando de artifícios semântico-eufemístico-conotativos para fazer saber alguma insatisfação mais pessoal, passional, íntima... Comunicados raciocínio e dúvida:


- Hahahaha! Não bestão! Olhe para o seu prato e olhe para o meu.


Obedeci, seguindo estritamente a ordem proposta. No primeiro, a couve; o alface; o tomate; a rúcula e o agrião, devidamente picados, disputavam a tapas espaço com o arroz e o feijão, todos concomitantemente engalfinhando-se com a farofa de repolho. E tudo elegantemente encimado por uma dourada bisteca, como se um quadro de Pollock usasse chapéu.


No outro, pequenas porções das mesmas coisas estavam dispostas como num arranjo ornamental, de acordo com alguns preceitos das cozinhas oriental ou francesa. Havia mesmo linhas geometricamente traçadas, separando o vermelho, o verde, o branco, o preto e o amarelo.


- Vê?


E eu via. Via que, realmente acreditando que o café deve ser tomado quente e a cerveja gelada, ela nunca entenderia que não é o estômago ou a língua que reclama quando esta ordem se inverte, e sim o cérebro. E me achei forte e superior, por poder jogar para dentro todo tipo de porcaria de uma vez só, sem antes precisar catalogar e avisar ao organismo quantas gramas de quê estavam chegando. Minhas células eram suficientemente espertas para realizar a triagem por si mesmas.


A conclusão óbvia é que o primeiro prato, por refletir a anarquia, o meu próprio paladar, e a pujança e inteligência daqueles que podem comer o que bem entenderem, é superior. Enquanto que o outro, da ordem e conseqüentemente do progresso, por assemelhar-se ao imobilismo das fórmulas restritivas que tem por função amoldar corpos e mentes em um único padrão social, não passava de um engodo insosso.


Tentei participar-lhe minha genial conclusão, mas era tarde. Ela já se havia levantado, e elegantemente encaminhava-se ao banheiro onde, pontualmente ao meio dia e trinta e cinco, largava o seu barro diário.




Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves






Texto originalmente postado em: http://nossogarfodecadadia.blogspot.com/2007/01/coisa-feia.html