sábado, 10 de maio de 2008

Acondicionamentos

- Mas é bonita?

- Ahn... Como vou explicar...

- Rapidinho! De zero a dez?

- Sete e meio...

- Porra! Sete e meio é bom pra caralho!

É que o punhado de anos que separavam nossas idades foram suficientes para submetê-los a um ensino médio nota cinco, condicionando-os a padrões sensivelmente mais baixos.


Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

Roll-off

Atordoado por uma solidão sem tamanho, Gervásio procurou, como último recurso, o psicanalhólogo recomendado.

Contando-lhe os medos e traumas advindos do imenso sofrimento de ver seus semelhantes afastarem-se mais e mais a cada dia, percebeu que estava à beira de algum tipo de abismo ao testemunhar o profissional refugar seu dinheiro para não mais ter de aturá-lo.

Remoendo-se em culpas e incertezas várias, recolheu-se a um qualquer canto, e a vida fez-se pranto, até o dia em que, de seu leito de morte, o pai aconselhou-o sabiamente:

- Gervásio meu filho, coisa mais feia um mosquito da sua idade não saber diferenciar desodorante de repelente...





Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves



http://nossogarfodecadadia.blogspot.com/2007/08/roll-off.html

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Vaga consciência

Ela não teme a morte porque sabe que a morte não passa de mero não existir.

Entende no entanto que tal perspectiva já é suficiente para aterrorizar a maioria das consciências, cujos amores, alegrias, tristezas e dores são motor a impulsionar a ânsia por perpetuar-se pela eternidade.

Quando arrancados de si tais impulsos foi que descobriu a chave para uma plenitude que não mais lhe interessava.

Perambulando pela existência, entretecendo teias do masoquismo mais sádico, ela não ama a morte, pois já esteve morta, e sabe que nem mesmo aí reside algo que lhe desperte tênue paixão.

Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

Godofredo vingador

Rezavam e rezavam por um milagre, e quando este aconteceu sequer se deram conta. Isto porque o nascimento de Godofredo deu-se em silêncio, longe de seus olhares buliçosos, sem acompanhamento da mídia, presença de estrelas ou fogos de artifício.


Godofredo enxergava padrões e isso o tornava imortal. Percebia e percebia e percebia em ritmo impossível, e naquele dia, no laboratório, ninguém o notou. Tudo estava preparado, o experimento pronto para ser posto em prática, as cobaias enfileiradas mas ninguém notou que pela milionésima vez o rato era o mesmo.


Pudera, Godofredo não deixava. Usava seus poderes para distorcer tempo e espaço e torturar infinitamente as cobaias mandando-as para o inferno via portal transdimensional. Congelara o tempo, e se divertia a milênios repetindo a mesmíssima ação.


Godofredo era a bactéria vingadora, e volta e meia usava o rato em que habitava para dar um soco no olho do cientista que lhe vinha estudar.





Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

Originalmente postado aqui: http://nossogarfodecadadia.blogspot.com/2007/09/godofredo-vingador.html

domingo, 6 de abril de 2008

Desgarça

Tessitura de tudo que foi,


num rasgo final de beleza.


Contrapondo ao escuro infinito


um raio,


um grito,


tristeza.



Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

Humor

Eu não amo, eu húmus.

Pois conquanto seja o cérebro fértil,

o peito é tal qual um deserto de sal.



Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves



domingo, 2 de março de 2008

Prevenir é remediar



A leitura estava tão boa que os mestres já não pareciam mais tão mestres. Assim foi que as interferências constantes na aula tele-transmitida proporcionaram o ensejo para a caminhada vespertina sob a chuva inconstante, conforme requeria o pendor dionísico para o qual subitamente vi-me direcionado.

É uma quinta-feira, véspera de feriado, e em meu íntimo reside a certeza de que mais uma gota de semântica, sintaxe ou morfologia acarretará em overdose, falência múltipla de órgãos, cólicas explosivas; o derradeiro colapso enfim, que um dia nos fará a todos cair duros, não importando onde ou como nos encontremos.

Não se trata aqui das fúteis preocupações do típico hipersensível cidadão urbano do século XXI, cujo excesso de estímulo sensorial tornou incapaz de qualquer esforço de aprendizagem. É que ontem à noite dei uma olhada por conta própria num desses manuais sobre composição de textos, e todos sabem que a combinação deste tipo de leitura e uma tradicional aula de português é ainda mais fatal do que mentos com coca-cola.

Maconha, álcool e cocaína no organismo do motorista apressado na BR garoenta. Um quase isso. Ou, para quem aprecia emoções realmente fortes, cascola, anti-inflamatório intestinal e uma garrafa de vodka em cima de uma barra-forte sem freio, calçado de havaianas na descidão da Barão do Amazonas.

Porque todos reconhecem os perigos particulares e se comprazem advertindo-se mutuamente sobre tais e quais, acomodando-se no entanto ante a inversão de valores suprema: priorizar a forma sobre o conteúdo.

Armada apenas de técnica, toda multidão acrítica - por raivosa que seja - não alcançará nunca estabelecer sua cabeça de ponte rumo à eternidade. Isto porque é necessário ter algo a dizer, conforme nos legou o aclamado pederasta.

Originalidade e criatividade ainda é indispensável, ao contrário do cem por cento de acerto na acentuação, mesmo que o procurem desmentir certos professores e manuais.

Pois se o sucesso constitui-se de noventa e nove por cento de esforço e persistência, é no um por cento de talento que se encontra a diferença entre o genioso e o medíocre.

Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

A culpa do frango

O frango nasceu e cresceu normalmente, em uma pequena granja do interior do estado, onde teve uma infância e adolescência comum e tranqüila, sempre rodeado pelos seus.

Quando atingiu a idade correta, de bom grado aceitou cumprir seu papel naquilo que imaginava ser sua natural contribuição para com a manutenção das engrenagens que sustentam uma sociedade humana justa e igualitária.

Talvez ele tenha sido desde sempre um “sangue ruim”, portador de problema congênito indetectado. Ou talvez o rápido esquartejamento a que tantos se submetem sem mais, o tenha despertado para o desejo de vingança, amadurecido após longo tempo em uma vitrine climatizada, exposto aos olhares de tal sociedade, que apesar do alardeado consumismo, o rejeitava.

De concreto, quatro cuecas e uma calça de moletom jazendo de molho em baldes e tanques, vítimas de uma fúria oriunda das próprias entranhas do universo, além de dois heróicos rolos de papel higiênico, que sem pestanejar doaram suas existências quando acionados na tentativa de conter a tragédia.


Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves



domingo, 3 de fevereiro de 2008

Malsão

Meu signo é libra e meu temperamento é de contida selvageria. Inconstância, portanto, há de ser sempre o fiel desta balança.

Já há vários anos a doçura da amêndoa comunica com força a cada vez q tusso: Morte! Morte! Morte!

Entre a ousadia e a precaução, o oscilar de meus sentimentos parece levar-me sempre ao encontro do inusitado, seja por hábito, tática, ou falha na execução.

Minhas roupas são velhas, e por mesquinharia ou vaidade, por elas sinto amor. Minha pose é calculadamente charlatã e o orgulho tenso de quem reconhece a soberba na própria face não me deixa admitir que em verdade, aí reside o segredo e o engenho.

Sou todo prosa.

Quando não, poesia.



Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

Coisa feia

- Sua comida é feia.


Absorto em meus pensamentos entre uma bocada e outra, não entendi ou sequer prestei-lhe atenção, resmungando um “Hum?” a título de resposta.


- Sua comida. É feia.


Principiando a dar-lhe ouvidos, imaginei que referia-se a meu jeito estabanado de utilizar os talheres, derrubando alimento pela mesa, peito, colo e chão; ou ainda à minha inata habilidade em lambuzar de molho da orelha à nuca ao comer cachorro quente.


- Ah! Isso também!


Também? Acaso havia mais? Estava já desconfiado de a fêmea estar-se utilizando de artifícios semântico-eufemístico-conotativos para fazer saber alguma insatisfação mais pessoal, passional, íntima... Comunicados raciocínio e dúvida:


- Hahahaha! Não bestão! Olhe para o seu prato e olhe para o meu.


Obedeci, seguindo estritamente a ordem proposta. No primeiro, a couve; o alface; o tomate; a rúcula e o agrião, devidamente picados, disputavam a tapas espaço com o arroz e o feijão, todos concomitantemente engalfinhando-se com a farofa de repolho. E tudo elegantemente encimado por uma dourada bisteca, como se um quadro de Pollock usasse chapéu.


No outro, pequenas porções das mesmas coisas estavam dispostas como num arranjo ornamental, de acordo com alguns preceitos das cozinhas oriental ou francesa. Havia mesmo linhas geometricamente traçadas, separando o vermelho, o verde, o branco, o preto e o amarelo.


- Vê?


E eu via. Via que, realmente acreditando que o café deve ser tomado quente e a cerveja gelada, ela nunca entenderia que não é o estômago ou a língua que reclama quando esta ordem se inverte, e sim o cérebro. E me achei forte e superior, por poder jogar para dentro todo tipo de porcaria de uma vez só, sem antes precisar catalogar e avisar ao organismo quantas gramas de quê estavam chegando. Minhas células eram suficientemente espertas para realizar a triagem por si mesmas.


A conclusão óbvia é que o primeiro prato, por refletir a anarquia, o meu próprio paladar, e a pujança e inteligência daqueles que podem comer o que bem entenderem, é superior. Enquanto que o outro, da ordem e conseqüentemente do progresso, por assemelhar-se ao imobilismo das fórmulas restritivas que tem por função amoldar corpos e mentes em um único padrão social, não passava de um engodo insosso.


Tentei participar-lhe minha genial conclusão, mas era tarde. Ela já se havia levantado, e elegantemente encaminhava-se ao banheiro onde, pontualmente ao meio dia e trinta e cinco, largava o seu barro diário.




Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves






Texto originalmente postado em: http://nossogarfodecadadia.blogspot.com/2007/01/coisa-feia.html


sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Em cima do Lácio

Laceada flor do Lácio,

largamente inculta e bela.

Entrecurtanto a conversa:

Cagou.

É vaca amarela.





Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

domingo, 20 de janeiro de 2008

Cinzas

E me senti bem por ter todos os sentidos despertos e apurados, indicando que havia chegado o tempo de cuidar e não ser cuidado, como todos ao redor bem sabiam. E quedei-me ali a sentir-me bem, enquanto no vídeo passavam todas as últimas novidades dos anos sessenta.

A TV Macho decretou: cinza é a cor da moda. Para sempre, para felicidade dessa cidade de alma cinza, de cujo céu nuvens chuvosamente cinza resolvem descer quando lhes dá na cinzenta telha, tornando-se densa névoa donde surgem sem aviso idílios ou abominações, conforme a imaginação do transeunte.

É uma cidade fantasma, disseram-me seus gentis lábios de mocinha interiorana. Ó sim! Como mesmo uma recém chegada pode constatar, há penadas almas cinza a perambular dia e noite pela cidade. Essa névoa, essas nuvens, essa cor, essa sensação, não passam de uma manifestação da sua presença.

Uma música traz a lembrança do porquê da escolha em tratar apenas com entes mortos é vã. Existir é machucar. E machucar-se. As vezes, voluntariamente.



Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves



Vai o vídeo como referência:




Incógnita

Óculos,
nariz,
bigode.

Por cima um saco de pão.

Corada sob a maquiagem,


incógnita.

Multidão.


Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves





domingo, 6 de janeiro de 2008

Fraseologia prostitutológica

Mamãe gaviona
Ensina o filhinho
A gavitoar:
- Gaviota filhinho! Gaviota!



Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

Comunicação direta

Já faz algum tempo que percebi que a chave da transcendência é imaginar o inimaginável. Claro que isso é impossível, há um paradoxo intrínseco à proposição. Mas como vem sendo insinuado desde a aurora da humanidade, de vez em sempre a grande recompensa em uma jornada é o caminho percorrido, não o destino a que se chega.
Neste caso específico, isto significaria que o exercício de tentar imaginar o inimaginável é mais importante que a resposta a ser alcançada através de sua prática. Isso porque tal "técnica" nos induz a um estado mental similar ao de "mente vazia" considerado ideal por espadachins e duelistas em geral, quando no desempenho de funções e/ou hobbies.
Ao que parece, o efeito para o praticante é uma liberação da consciência, permitindo que corpo e mente ajam simultaneamente, sem interferências de qualquer ordem. No dia a dia, sua utilidade seria especialmente sentida em coletivos lotados, onde invariavelmente um infeliz - no mais das vezes estudante - se coloca às minhas costas com uma mochila aos ombros.
Apenas quando a sabedoria e engenho acumulados por nossa civilização atingissem um grau tal que nos permitisse a invenção de um transcendenciômetro, poderíamos talvez vislumbrar a magnitude do processo por que passa um indivíduo que, corpo e mente funcionando em perfeita sintonia, menos do que apercebendo-se que o corpo humano é similar a uma pirâmide invertida - com o tronco ocupando volume significativamente maior do que as pernas - instintivamente transferisse seu fardo das costas para a mão, minimizando assim o óbvio desconforto que a sua parca percepção tem por efeito causar àqueles a sua volta.
Um cidadão razoável certamente poderia tentar acelerar o evento, verbalmente comunicando a situação ao ser atravancante. Eu porém, sigo os preceitos milenares de antiqüíssimas civilizações orientais, as quais, mui corretamente, nos legaram o popular adágio: "uma cotovelada na nuca vale mais que mil palavras".

Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves


Texto originalmente postado aqui: http://nossogarfodecadadia.blogspot.com/2006_08_06_archive.html