Ao invés de formarem uma rede adolescente de amizade e apoio mútuo, constituíram-se enquanto matilha. Território a proteger e hierarquia a seguir. Nenhuma misericórdia. Aquele que caísse, seria massacrado pelos próprios companheiros. “Se você morrer, esse tênis é meu.” Apesar de nunca ter feito parte de seus quadros como membro efetivo, minha condição de tabu permitiu-me documentar seus atos e motivações, sua fúria destrutiva respaldada pela necessidade de sobrevivência. Um trabalho quase científico, uma opção pela mais perigosa e gloriosa das missões.
Eles perambulavam; dia e noite; pelas ruas, avenidas e carreiros. A urbe, em toda sua caleidoscópica extensão, era sua selva, tundra e savana. Magérrimos de não comer, engalfinhavam-se em entreveros com hienas e chacais das adjacências, quando não estavam a pular muros atrás de ração abundante, ou de cadelas no cio.
Eram o trabalho dos cães de guarda e o ódio dos proprietários, que esperando um capa preta para preservar a linhagem, viam nascer, do ventre das cachorras em que investiram tanto tempo e dinheiro, um dingo.
Pois era a sua raça, alcunha e distinção: Dingos. Cães domésticos abandonados em ambiente hostil, que após sucessivas gerações, acabaram por retornar a um estado de selvageria.
Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves