terça-feira, 18 de novembro de 2008

Todo ser humano é besta


...alguns são incrivelmente bestas por períodos extremamente curtos, outros são suavemente bestas por tempo indeterminado. Muito embora sejam por vezes enfastiantes e freqüentemente tolos, são dois tipos comuns e de baixa periculosidade, não devendo, portanto, ser com eles despendida a nossa preocupação, e sim com os possíveis rebentos daí advindos. Pois, se acaso um espécime macho do primeiro tipo cruzar com uma fêmea do segundo tipo - ou vice-versa para ambos os casos - a humanidade corre sérios riscos de ter de aturar um ser híbrido, incrivelmente besta e por tempo indeterminado.

Em que pese o horror de simplesmente imaginar tal possibilidade, é meu dever adverti-los que, em verdade, existe outra ainda pior. O resultado desta cruza pode ser uma criatura que será suavemente besta por um curto período, para depois desembestar, deixando assim todo e qualquer tipo de besteira totalmente de lado para sempre.

Tais seres, porém, confinados em um mundo de eterna bestice, cedo ou tarde haverão de sentir-se muito solitários; obrigando-se então a passarem-se por simples seres humanos bestas, ao menos até encontrarem outros de sua mesma espécie para formarem alianças duradouras. É daí que surgem as verdadeiras e mundialmente reconhecidas "confrarias de metidos a besta"...


Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

Postagem original

sábado, 8 de novembro de 2008

Trechos do nada

O sucesso lhe veio tarde; após os cinqüenta; tornando-o num velho ridículo, que procurava suprir no presente as carências e complexos há muito desenvolvidos.


Pois empanturrar-se de Cupcakes não faria voltar o tempo, nem desaparecer o desprezo, a humilhação e as frustrações do passado, que tão fortemente moldaram seu caráter.


Assim, por detrás ou debaixo da fanfarronice que acreditava ser uma atitude jovial; por dentro e para além da dentadura sempre escancarada e das gargalhadas penosamente mantidas apesar da áspera realidade que calejara-lhe a pele e polira-o o espírito; ainda a mesma dor pungente de quando entre os doze e os quinze anos de idade constatara de forma indelével as limitações que o tornariam socialmente estéril.


Paulo Eduardo de Freitas maciel de Souza y Gonçalves

O sentido da vida

Ontem eu vi um cachorro ranhento, com grandes filetes amarelos escorrendo pelo focinho.
Meu avô, que era um homem grande e forte, e hoje está magro e fraco, as mãos maiores que a cabeça, me explicou que é uma cadela, que dorme nas vizinhanças e vai até o portão, se esfregar no cachorro sarnento dele, o Lupe.
O coitado do Lupe tinha tudo para se tornar um ótimo cão de guarda. Força, intrepidez, ferocidade, esperteza. Sabe-se lá em que altura da vida contraiu a doença que veio a debilitar seu corpo, consumir sua mente e torná-lo em um ser repulsivo ao toque humano.
Acho que ele está com raiva, e vai desgraçar a vida dessa cadela.
Hoje entrei no MSN, e cumprimentei todas as meninas e alguns dos caras com um amigável "daê gostosona". A maioria não respondeu. Duas ou três iniciaram uma conversação. E uma única me respondeu com soberba ofensiva: Me poupe!
Ela provavelmente será professora de português, ou inglês, ou espanhol, ou francês, mas seu orkut está cheio de erros gramaticais tão grotescos que espantariam qualquer visitante, não fossem as imagens em seu álbum, que mais eloqüentemente que mil palavras, gritam: MINHA BUNDA. MINHAS TETAS. MINHAS COXAS.
Sim, ela é uma gostosona.
E só.
Amanhã eu passarei o dia inteiro de ressaca, mandando links do blog para deus e todo mundo. Um pouco é mera propaganda, outro pouco é puro despeito. É verdade. Eu não dou a mínima para a deselegância de invadir o recesso do lar alheio e esfregar libelos libertários na cara dessa gente vagabunda e preguiçosa que trabalha pra caralho para pagar suas contas e acha que só isso compra o direito de tomar sua cerveja sossegado.
E embora minha postura filosófica de certa forma me obrigue a contestar afirmações de verdade absoluta como a encontrada no texto ali debaixo do meu, para efeitos de estilo assentirei à lógica que imputa ausência de sentido à vida.

Assim sendo, se a vida é sem sentido, e o próprio universo e eu mesmo também o somos, ninguém poderá me recriminar por um texto que é a imagem e semelhança de tudo ao seu entorno.

Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves


sábado, 1 de novembro de 2008

Fiança


Caminhar rumo ao horizonte sabendo que nunca se há de chegar, é avalizar a postura de quem professa a crença na distância como determinante do belo.


Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

Xaveco é lalo

Maçã esperta que era, desde a semente conhecia a antiga história que recomendava às melhores permanecerem no topo.
De seu recôndito galho - enquanto crescia - observava, analisava e concluía. Pois se faz necessário cautela, antes de aceitar plenamente antigas histórias.
Assim foi que presenciou o moço, intrépido e valente, galgar o topo da macieira, até, temerariamente alcançando a mais altiva e longínqua das frutas, mordê-la com avidez incontida. Para a seguir, guspi-la e exclamar displicentemente: - Está verde.
As melhores maçãs podem até ser as mais altas, mas nem sempre os melhores homens são os mais valentes.
Observou também a maçã que, madura e redonda, docemente esperava. Agüentando o quanto pôde, certo dia cedeu ao peso da própria maturidade e caiu ao solo. Foi devorada por um porco, que ao acaso ali passava.
Assim sendo decidiu-se a não estar nem lá nem cá. Manteve-se suculenta, porém acessível, na esperança de ser bem comida.
Certo dia foi colhida por bela e alva moçoila - não sabia que mulheres também comem maçãs? - mas resignou-se: Antes os pequenos lábios de uma jovem dama, que o desdém de um aventureiro, ou ainda a rudeza das mandíbulas de um porco.

A esperada mordida, no entanto, ainda não veio. Terminou seus dias num parque de diversões, entre tantas outras, vendida sob o nome genérico de "maçã do amor".

Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

Uma criança magrinha



Ele nem sempre fora assim, uma criatura tão escatológica.

Na infância, por exemplo, era tão pudico que nem guspir ele guspia. Claro que isso não fazia diferença alguma quanto ao enorme volume de ranho ou catarro que seu corpo produzia.

Diferente mesmo era seu corpo. Magro como um palito, ele quase não comia. Era de suas próprias secreções corporais que se alimentava.

Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

sábado, 18 de outubro de 2008

Por encanto

Toca-me entre dois pulsos

enquanto ainda respiro

que a carne é matéria fugaz

e se desfaz no infinito.


Dá-me enquanto inda há tempo

pra olhos e toques de mãos

para voar contra o vento

e correr sem direção.


Isso-me enquanto aquilo

mata-me enquanto estou vivo.



Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

A estrela e o fio de luz

Escondi uma estrela atrás de um fio de luz.

Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves


Postagem original

Convidado - Flaming

Postando aí as obras de convidados, inicio com um poemo gentilmente cedido pelo Flaming, uma figura misteriosa que há anos publica seus textos na internet, tendo já faturado uma ou outra rapariga por conta desse seu hábito tão salutar.


O CADÁVER

Ouço um grito que ecoa por toda a cidade
grito de horror que desperta em mim curiosidade

próximo da janela ouço
agora um intervalo
e depois mais outro

foi ali perto
que desespero
que será que tá acontecendo?
será coisa de alma penada?
será coisa da minha mente?
que aflige tal criatura?
viva ou morta
que será que me puxa até a porta?

giro a maçaneta
e algo me paralisa
alguém com um corte na barriga
alguém com roupas minhas
com minha coragem estampada no rosto
meu mesmo olhar oblíquo e curioso
e abaixo vejo expostas suas vísceras

horror seria se não começo a compreender o fato
vendo aquele corpo sem vida, sou eu ali deitado.

domingo, 5 de outubro de 2008

Shibumi


E serei

como a sombra que assombra,

como anta que espanta,

como a água que espalha.


Lamentando intensamente

a eterna dor de desviver.


Vasilho.

Vasilho da Gama,

Vasilho dos Dias,

Vasilho da Luz.


Vasilho.

Sobrenome, trocadilho;

rima na escuridão.


Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

Profecias sobre o passado



As pessoas vivem cercadas de belos dejetos. Elas se amam e amam umas as outras, mas como manda a moral e os bons costumes, uma de cada vez.

Olhos nos olhos, nenhuma palavra. Me envolva menina, que eu deixo. Enquanto isso, no açougue, a fila anda. Escreveu, não leu, o sabonete caiu, o pau comeu.

Não se pode confiar em mais ninguém nessa vida, chuchu, e é por isso que eu tenho um pé atrás. E outro na frente. Sempre.

Confie ne mim baby, eu vou fazer funcionar. Mecânica é a conversa do mecânico. As vezes tenho vergonha de ser bobão assim, mas dizem que isso é coisa que só acontece com quem tem sentimentos.
Eu me deito, e recordando da época em que nunca errava, me pergunto quando e porque os adquiri.

Conforme o tempo passou, e os vícios ganharam terreno, e os corpos se amontoaram a seus pés, nosso herói solar de número três balançou a mão com um muxoxo. Tudo que era capaz em termos de remorso. A seguir, olhos relampeando como no gibi, seus músculos retesados moeram a próxima vítima. De nada, tudo de novo.

É desse jeito, vocês gostam assim, uhum? Pois é, eu gosto do outro, e quem quiser mais desse, vai ter que agüentar três por um. Que tal que eu fosse ruim, e competisse de verdade só pra ver os números se multiplicarem, já imaginou?

Quando a gravidade se unir ao eletromagnetismo, e o maior for igual ao menor, os mundos se partirão em estilhaços, e em cada um deles, lá estarei eu, código genético do universo. Observar-me-ei em microscópios, e só enxergarei minha nuca. E mexerei minha mão esquerda, e em cada milhão de bilhão de trilhão de estilhaço, mexerei minha mão esquerda.

Nem eu não tenho honra, nem não tenho moral. Minh'arma não é minh'alma, e sim um pedaço de pau.

Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves


domingo, 28 de setembro de 2008

Menina do bucho oco

Da vida bonita que nasce contigo
de coisa alguma
do oco que sai.

Cabeça oca
do bucho vazio
deixa comigo que eu deixo pra lá.

Polaca seca do zóio de vidro
disse pra mim: "sair dói demais!"

Foi ao banheiro metida a dar cria
deu tanta merda que entupiu o vaso.

Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

Sonhos


Você é um sonhador - ouvi de certa feita. E os sonhos eram coisas ruins, conforme aprendera. Os sonhos impediam a realização de conquistas práticas.

Mas se foi através dos sonhos que garanti a mim mesmo, após vinte e sete anos de luta intensa, uma adolescência de Tom Sawyer!
- Quê? Sou ruim de inglês.

Foi através dos sonhos que me mantive criança conforme, com o decorrer dos tempos, conquistei respeitos díspares, e ascendi ao infinito para constatar de uma vez por todas que a maior das subidas fatalmente acabará nos mais profundos interiores de lá de baixo...
- É que quando eu crescer eu quero um Audi.
Mas esses que lhe ensinaram sonham também! Com democracias brancas e carros importados, e vagas para estacioná-los sempre em frente às portas que se deseje entrar, e um mundo de luxúria sem preço, onde não sejam importunados por pedintes fedidos ou bêbados, ou sejam obrigados a confrontar as conseqüências de seus atos e desejos, um paraíso da ação sem reação.
- Não... é que como é que eu vou dormir... se meus sonhos são sempre tão recheados de gente morta?

Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves


sábado, 20 de setembro de 2008

O pecado da carne

Eu sabia que era errado, mas não podia evitar. Estranho hábito... estranho prazer... Mutilar carne alheia.


Uma tal afronta, repetidamente cometida, não poderia passar em branco. E a vingança foi exigida e cobrada da forma mais ardilosa.


Paguei pela única falta não perpetrada, mas mesmo aí não senti remorso, apenas a indigna humilhação de haver sido passado para trás.


À mesa do almoço, encarando faces lívidas por sobre os filés sem mignon.




Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves



Que vontade de tocar instrumentos de soprar!



Dizer que não tinha vontade antes seria mentira. Mas foi na festa de aniversário de um ano da prima Janaína que começou a percebê-la como uma necessidade.

Fora ao aniversário só por causa dos brigadeiros, que a parentada mais velha ele via sempre, não precisava de festa pra isso, e os mais novos ele pouco conhecia, entendia, ou se importava. Eram de um comportamento diferente, a seu ver mais idiota, e se preocupavam mais com ficar bonitos do que fortes.

Assim, após empanturrar-se a ponto de sentir que sua barriga ia estourar, pouco lhe restava a fazer além de sentar e esperar pela hora de ir embora. Ou quem sabe pelo fim do mundo. Sempre fazia esse tipo de consideração quando bebia em locais inadequados, como festas de família, pois nessas horas era tomado pela enorme melancolia de saber-se um ser controlado por regras e convenções, incapaz de extrapolar, transcender e comunicar a todos aquilo que ia em seu íntimo.

E o que ia em seu íntimo era a solidão de toda uma vida. Trinta anos de desilusões e expectativas frustradas, as quais aceitava com uma mansidão resignada que se estampava em sua face e fazia as pessoas imaginarem-no um parvo. Por isso riam à sua volta, e insultavam sua inteligência e sensibilidade os grandes e os pequenos, fazendo-o afastar-se e procurar outra forma qualquer de distração.

Encontrou-a na forma de uma corneta, sua distração. Assoprou-a de início timidamente, testando os sons e as intensidades. E pouco depois a tocava com vigor, pú-pú-pú-púúúú,pú-pú-pú-púúúú, incomodando primeiro os mais próximos e logo após todos os que se encontravam no amplo salão de festas. Pú-pú-pú-púúúú, pú-pú-pú-púúúú. Tanto fez, que tomando-o por demasiado embriagado um tio logo dispôs-se a levá-lo embora.

Embora foi, mas sua nova mania ficou. No salão de festas, a geração mais nova atentou os parentes por horas a fio: pú-pú-púpú. Eles não tinham o mesmo domínio sobre o instrumento que seu parente mais velho demonstrara. Em casa, e mesmo nas ruas, treinou e treinou, fazendo os cachorros das redondezas uivarem de alegria: Pú-pú-pú-púúúú! Decidido, juntou umas economias e comprou um trompete.

Logo passou a ter aulas também, nas quais se revelou um grande talento. Mas para desespero dos entendidos, era demonstrar que podia, e recusar-se a tocar qualquer música existente. Seu único prazer era pú-púzear livremente, e em nome deste, largou tudo o mais. Intimamente meditava: "E não é que querem impor convenções à minha música também?"

Desde cedo ele o sabia, mas não cansava de se espantar. Tudo o que lhe diziam revelava que as pessoas acreditavam que convenções sempre houveram, e o que calavam revelava que criam que sempre haveriam. Na matemática, física e química, nas relações sociais e na literatura. No céu, na terra, no fogo, no mar e no ar. O mundo em que viviam era uma convenção e as pessoas eram convenções ambulantes. Em meio a tudo isso: Pú-pú-pú-púúúú. Uma única verdade a ser alardeada.

Precursor de uma nova onda, morreu aos quarenta e sete, de bronquite, na esquina da Sunset Street com a Florisbela Boulevard. Diz-se que poderia ter-se salvo, caso parasse de pú-púzear a tempo, e que ainda hoje se podem ouvir ecos de seus pú-pús pelas ruas do quarteirão. Careca e barbudo, era a cara do Mister Natural. Seu nome era Hermínio João.

Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

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